Este post vai fugir ao contexto deste blog mas espero que seja uma lição para futuros casos idênticos.
Há coisas que me deixam a pensar e este caso foi um deles.
Esta cadela que está na foto, foi o maior sonho que alguma vez tive enquanto criança, filha do cão que mais cobicei dês que me conheço. Tal como prometido tive a cadela mais bonita da ninhada desse meu amigo Rex, a Shakira! A Shakira chegou cá a casa com pouco mais de um mês e aqui cresceu como se fosse uma nova filha onde foi tratada como uma princesa. Teve todo o amor que qualquer animal sonharia ter e era elogiada por toda a gente devido à sua beleza e à forma de como era tratada. Com ela vivemos e guardamos inúmeros momentos, inúmeras peripécias e histórias que nos ficaram na memória de uma cadela que foi única e especial e que temos plena consciência que como ela nunca mais vamos encontrar.
Possuidora de uma alegria e uma energia fora de série, ela animava qualquer pessoa triste, ela saudava calorosamente qualquer chegada a casa, a Shakira foi uma fiel amiga em todos os momentos. Ela vivia solta dentro do nosso quintal onde tinha todo o espaço para fazer o que quisesse e tinha um canil vedado com uma casota nas traseiras da casa onde era o espaço próprio dela que tinha todos os seus pertences. Sempre que se escapava para fora do quintal, gostava de fintar as nossas ordens mas andava sempre por perto dentro do nosso raio de alcance pois temíamos que fugisse para a estrada que passava nas traseiras do aldeamento, a EN 125.
No dia 12 de Dezembro de 2009, numa tarde completamente normal, precisou-se de abrir o portão grande a pensar que a Shakira estava presa no seu canil...mas na verdade foi um descuido, já que ela estava solta no quintal e apercebendo-se do portão aberto aproveitou para dar uma escapadela até à rua. Nós não demos conta da sua fuga mas alguns minutos depois estranhamos a ausência dela pelo quintal e percebemos que ela se tinha escapado. Fomos imediatamente à sua procura no jipe. Não era normal ela se afastar de tal maneira a ponto de não estar na zona habitual, o que nos levou de imediato a nos dirigirmos para a EN 125. Ao sair da rotunda do Mato de Santo Espírito em direcção a Tavira, passando a 4ª vivenda (cerca de 100m da rotunda), na berma junto as ervas avistámos aquilo que jamais queríamos ver... A Shakira morreu vítima de atropelamento, tinha apenas 7 anos.
Carrego o peso da tristeza de ter perdido esta fiel companheira, mas carrego ainda mais a revolta de a ter perdido da forma como a perdi e do que poderá estar relacionado com isso. Os sinais presentes no corpo dela induziam a uma pancada lateral na parte da frente (na zona da cabeça e do pescoço), pois o corpo estava intacto embora inchada na cabeça, apenas com algum sangue no pescoço e no interior da boca e com a espinha dorsal junto ao pescoço partida. Julgo que internamente deveria ter muito mais lesões, embora no exterior foi tudo o que consegui observar. No local não se verifica qualquer tipo de travagem, sendo uma recta com uma grande visibilidade num raio de 400/500 metros a contar da rotunda...rotunda essa que obriga a um abrandamento da velocidade.
Pela lógica a Shakira encontrava-se desorientada na berma da estrada a tentar regressar a casa em direcção à rotunda com os carros a circularem em direcção oposta. A dado momento e devido à exaltação dela devido aos carros a passarem ao seu lado, algo a fez se aproximar da zona de rodagem numa posição como se fosse atravessar a estrada (visível a qualquer viatura que circulasse na sua direcção) quando um carro a atingiu de na zona lateral da cabeça e do pescoço, projectando-a para a berma onde ali permaneceu até nós a encontrarmos.
A morte deve ter sido instantânea, mas mesmo se houvesse alguma probabilidade de ter sobrevivido naquele momento a crueldade daquele(a) condutor(a) fez com que nem sequer parasse para a ajudar.
Negligente e com tanta visibilidade ao sair de uma rotunda que normalmente não deveria de ir a mais de 60km/h no local do atropelamento como foi possível não ter reparado num animal desorientado na berma da estrada? Como foi possível não se ter apercebido ao ponto de pelo menos travar para tentar evitar o atropelamento?
É este a revolta que carrego, de imaginar o sofrimento da minha Shakira nos seus momentos finais de vida, de imaginar o atropelamento, de imaginar a indiferença de quem conduzia aquele carro que nem sensibilidade teve para parar e ir prestar auxilio. Carrego a revolta por saber que quem a atropelou, reparou numa cadela na berma, ia em excesso de velocidade e nem sequer abrandou na presença de um animal a beira da estrada, revolta de quem percebeu que a ia atropelar e nem travou, revolta de quem atropelou e nem coração teve para parar.
Revolta de saber que talvez até pode ter sido propositado tal atropelamento só pelo prazer de matar como já muitos casos semelhantes foram revelados.
Revolta de a ter perdido deste modo sem ao menos me poder despedir dela, pois ninguém contava com uma morte tão prematura numa cadela tão saudável e com tantos anos ainda para viver...
E eu penso, quem atropela um cão na berma de uma estrada, atropela também uma criança desorientada nas mesmas condições...
E apelo a todos os condutores que reduzam a velocidade nas estradas, pois um animal pode surgir a qualquer momento, e desorienta-se com facilidade pois trata-se de um ser não racional que não sabe o que faz.
Um animal é como nós humanos, sente o medo, a dor, a tristeza, o sofrimento...não é um objecto no qual podemos nos divertir.
Deixo-vos a reflectir sobre isto pois sei que este caso que hoje vos retratei não foi o primeiro e nem será o último.
Vou partilhar algumas memórias desta minha fiel fiel companheira, que guardo no meu coração com todo o carinho, o mesmo carinho que ela soube transmitir a toda a gente durante os seus 7 anos.

Shakira
05/12/2002 - 12/12/2009